17.6.09

GUERRA À MEDIOCRIDADE

Pode-se extrair algo de positivo da recente seqüência de catástrofes (que ninguém sabe dizer se já acabou)? De positivo, nada, que ninguém aqui há de ficar contente quando o Flamengo nos envergonha. Nem mesmo os que, como eu ou o Lucas Dantas, tivemos de arcar com as acusações mais injustas -- de “corneteiros” a “antiflamengos” -- por assinalar as carências evidentes desse Flamengo. De mais a mais, não há figura mais irritante, nas derrotas, do que o pessimista que desanda a falar “eu-te-disse”.

Mas, se prazer não nos dá, ao menos permite desacreditar alguns mitos que há anos a gente vê repetidos por aí, às vezes por rubro-negros da melhor cepa (outras, nem tanto). O principal deles é a conversa mole de que, aconteça o que acontecer, estamos “melhor que em 2005” -- a data mágica em que o sr. Kléber Leite ressurgiu do ostracismo para, segundo a versão, salvar o Flamengo do rebaixamento, montar times competitivos e fazer-nos aspirar a coisa melhorzinha do que escapar da segundona.

Para quem tinha olhos de ver, a falsidade desse argumento já devia ser evidente ao final da temporada passada. Não só pela maneira vergonhosa como ficamos de fora das brigas pelo título e pela Libertadores -- indícios de que o time tinha estacionado num patamar indigno do Flamengo --, mas sobretudo pela declaração inacreditável, para quem não compactua com a mediocridade, de que a “prioridade” para 2009 era o campeonatinho carioca. Discrepâncias à parte sobre o valor do carioquinha, elegê-lo como prioridade não é comportamento de quem aspira à grandeza.

Fato é que, com apenas seis jogos disputados, eu conheço rubro-negro que já anda fazendo conta de quanto falta para escaparmos do rebaixamento (para quem quiser manter o cômputo, faltam 38 pontos em 32 jogos). Queira Deus que essa precaução não seja necessária e que, ao final do primeiro turno, estejamos aí mais ou menos onde estamos, graças ao Patético Paranaense e ao todo-poderoso Santo André. Mas mesmo esse cenário desacredita a tese furada de que o sr. Kléber Leite fez deste um Flamengo protagonista.

Outro mito que cai é o do valor do nosso elenco. Esqueçamos os que argumentam, com a cara mais lavada deste mundo, que até o jogo contra o Sport tudo vinha bem, porque “jogamos melhor” que o Internacional e o Cruzeiro (quando a única definição válida de “melhor”, em futebol, é fazer mais gols que o adversário). Concentremo-nos nos não-piadistas que viam esse time bater (aliás, empatar) no Botafoguinho e viam aí material humano bastante para bater no São Paulo ou no Inter. Quantos destes já começaram a rever seus conceitos? Mais importante: quantos destes já põem em questão a sabedoria da decisão (de quem? de quem?) de “manter a base” que tanto desgosto nos deu, em 2008, assim como se falasse dos juniores de 1990?

Senhores, estive lendo os comentários aos últimos posts. Mais do que a insistência de alguns em ainda defender o sr. Kléber Leite, chama a atenção a freqüência com que os esclarecidos se rendem à resignação: sim, o Flamengo de hoje é uma zona, e o principal culpado é o Kléber Leite, mas de que me adianta ter certeza disso se, no fim do ano, uma centena de sócios vai reconduzi-lo ao mando ou eleger coisa igualmente ruim?

Eu queria poder oferecer uma palavra de alento a esses torcedores, mas hesito. Tenho a mesma confiança que eles na sabedoria de um sócio do Flamengo diante de uma urna. Ainda assim, não posso deixar de ter uma pontinha de esperança ao ver um rubro-negro dos melhores como o meu querido Arthur Muhlenberg subscrever, no espaço exíguo de uma semana, duas das teses que eu vinha defendendo aqui, de maneira inglória: (1) que, com Bruno, Leo Moura e Juan (eu ainda acrescentei o Ibson), este Flamengo tem uma espinha dorsal de perdedores, de atletas falhos de caráter, e é preciso escorraçá-los da Gávea o quanto antes; e (2) que, mais que derrubar treinador, é chegada a hora de botar na rua quem escolhe treinador e compra e vende jogador (o Arthur, muito mais elegante que eu, prefere não dar nome aos bois, mas eu aponto à execração pública os srs. Kléber Leite e Plínio Serpa Pinto).

Assim como o Arthur, vejo muita gente boa, aqui mesmo neste espaço, gente que antes discordava de mim (às vezes enfaticamente), hoje defender as mesmas coisas que eu venho defendendo há pelo menos um ano.

Se essa consciência crescente é capaz de influenciar o torcedor que vota, eu não sei. Eu às vezes desconfio de que o sócio do Flamengo é impérvio à argumentação racional. Mas talvez, antes de perdermos de vez a esperança e deixarmos o Flamengo apequenar-se dia a dia nas mãos de Kléber Leites e quetais, talvez valha a pena um último esforço. É preciso ser implacável ao assinalar a culpa central do sr. Kléber Leite no apequenamento do Flamengo, de 1995 para cá. Recordar aos indecisos, sempre que possível, a seqüência de vexames que começou lá com o pior ataque do mundo e não terminou nunca mais. Desmontar cada um dos mitos em que essa gente se escora -- “melhor que 2005”, “melhor que o Edmundo”, “melhor que Barros e Biscotto” -- e assegurar que o Flamengo pode ter um futuro melhorzinho do que isso. E, sobretudo, nunca, jamais compactuar com a mediocridade.

Hoje, muito mais gente está convencida disso do que ontem. Se conseguirmos a adesão de alguma organizada, tanto melhor, mas não alimentemos ilusões. Se cada um fizer a sua parte, se for intransigente e explícito em seu ódio, só a força das nossas convicções há de ser irresistível até mesmo para o mais alienado dos sócios-eleitores.

Fora, Kléber Leite!

5.5.09

TRAGAM DE VOLTA A FAIXA

Os Virgílios e Homeros do carioquinha hão de me dar licença para falar do tema fastidioso dos oito meses que nos restam de temporada. Muito bem, ganhamos o pentatri e até eu, descrente que sou do valor desses certames municipais, me emociono com a nossa torcida se emocionando. Celebro a nossa torcida celebrando, e não há reação mais rubro-negra que esta.

Passado, no entanto, o deslumbramento com a nossa festa, sou tomado pelo impulso sádico de ir aos blogs botafoguenses para vê-los espernear. E constato, mortificado, aquilo que eu já sabia: bater nessa gente é covardia, tripudiar deles depois deve ser até pecado, e me desculpem se eu não me sinto bem vendo o Flamengo comportar-se como o peso-pesado que se compraz em trocar sopapos com pesos-pluma. Mengão has been boxing way below its weight, se me permitem.

Polêmicas à parte sobre o valor atual do carioquinha, o que não devia ser objeto de debate é que, valioso ou não, o estadual é menos que suficiente para as aspirações e tradições de um time do tamanho do Flamengo. Digo isso porque, infelizmente, os sinais que recebemos da Gávea, passados dois dias da conquista, são no mínimo equívocos.

Muito bem, o Cuca pôs a putada para treinar já na segunda-feira, e, ainda que tenha sido só um recreativo, não poderia haver sinal melhor do que este de que o time do Cuca não quer repetir a experiência amarga do time do Joel, na quarta-feira seguinte ao título.

Ou poderia? No dia seguinte, eis que o goleiro Bruno vem a público dizer que aprendeu a valorizar o carioquinha, “ainda mais um tri”. O grave, no caso, não é o que ele disse, mas o contraste com sua declaração anterior de que “acho que o estadual é muito pouco [...] pelo que a gente faz e pelo que é cobrado durante o ano: quero algo mais”. Difícil evitar a impressão de que o porta-voz e agora líder do time está conformado com o carioquinha, e espera que a torcida esteja igualmente conformada. A impressão sai fortalecida pelo fato de ele estar pagando agora todas as promessas acumuladas ao longo dos vexames de 2008, a ser honradas quando ganhássemos “um título importante”.

Além do Bruno, também o nefasto Kléber Leite teria vindo a público (não achei a fonte) afirmar que “a prioridade, agora, é o tetra”, assim como afirmara em dezembro que “a prioridade, agora, é o tri”. Como assim, sr. Vice-Presidente? E esse intervalo de oito, nove meses entre hoje e o começo do carioquinha 2010?

Vindo de quem tem a chave do cofre, a declaração é muito mais grave do que a de quem só aspira a, de vez em quando, fechar o gol. Porque deixa a suspeita de que, se planejamento há na Gávea (uma hipótese, admito, generosa), todos os outros objetivos ficam subordinados à prioridade maior de ser tetracampeão estadual, contra botafogos e fluminenses. Admitido isso, está justificado desfigurarem o time na primeira janela de transferências, igualzinho em 2008, para montarem um novo time para frutificar dali a seis meses -- com resultados iguaizinhos aos de 2008.

Aos que enxergam em tri ou tetracarioquinhas o supra-sumo da glória, me desculpem, mas esse não é o Flamengo que eu cresci reverenciando. E se há mais gente em nossa torcida que pensa como eu (e eu suspeito que haja muita), fica aqui o apelo a quem de direito: tirem do armário, imediatamente, aquela faixa do “Brasileiro é obrigação”.

A faixa, é verdade, foi confeccionada num momento de supremo emputecimento com o time, logo depois de um estadual desses que hoje neguinho trata como a consagração definitiva. Mas ressuscitá-la hoje não tem por que ser interpretado como um ato hostil aos jogadores que, até aqui, no que vai de 2009, estão com crédito. É ato meramente preventivo, só um lembrete ao Bruno e aos seus futuros comandados de que, gratidão à parte pelo pentatri, nós esperamos mais deles.

Se possível, ressuscitem a faixa já para o jogo de amanhã, contra o Fortaleza. Eu cá suspeito que o que nós virmos em campo, no Ceará, há de ser um aperitivo do que o time nos reserva no que resta de 2009. E resta uma eternidade.

18.4.09

O FLAMENGO DO LEONARDO E O FLAMENGO DO KLÉBER LEITE

Reconheço de antemão que este é um momento complicado para eu tornar a dar as caras aqui. Às vésperas de uma final da Taça Rio, que muita gente boa acredita ser grandes merdas, minha conhecida impaciência com os pernas-de-pau que hoje compõem o Flamengo (jogadores e dirigentes, cada um na sua área) há de ser motivo suficiente para que se me acuse de corneteiro. Paciência.

Vou passar ao largo da pelada de domingo, cuja única serventia é a de permitir-nos passar à frente de um rival de dimensões meramente municipais numa competição idem. Tudo bem, há quem se emocione com essas coisas.

Se rompo meu silêncio de quatro meses para falar agora é porque fui levado a isso pelos recentes pronunciamentos do Leonardo, de uma lucidez atordoante. Não que a essência do que ele diz constitua grande novidade. Leonardo vem defendendo algo assim como a privatização do Flamengo há pelo menos seis anos. A única coisa que mudou agora foi a repercussão da coisa, com faniquitos histéricos de quem tem culpa no cartório por o Flamengo ter-se tornado essa instituição que só aspira ganhar campeonatinhos cariocas.

Nas poucas rodas em que me é dado opinar sobre assuntos rubro-negros, tenho defendido idéias semelhantes às do Leonardo há não pouco tempo. Ao mesmo tempo, confesso que há muito sinto certa exasperação com o Leonardo a cada vez que o ouço bater na mesma tecla, como que numa discussão meramente acadêmica, sem envolver-se minimamente na briga política indispensável para levar o projeto adiante. Ele lá alega que a estrutura viciada do Flamengo inviabilizaria de antemão qualquer esforço seu nesse sentido. Mas defende-se afirmando que tem conversado a respeito com dirigentes do clube. Em resumo: o valoroso Leonardo parece esperar que a mesma estrutura viciada que ele denuncia, por pura e simples persuasão racional, produza as mudanças que permitam a privatização do Flamengo.

Muito bem. Sem deixar de subscrever essas críticas que fiz ao Leonardo, sou forçado a reconhecer que, desta vez, o nosso valoroso ex-camisa 4 conseguiu algo realmente produtivo. Muito pela forma radical como se expressou -- a manchete d’O Globo era “Abre o clube, vende o Flamengo” --, pôs o tema na agenda de todo o mundo disposto a pensar o Flamengo para além da escalação do próximo jogo. Os conseqüentes ataques de pelanca dos dinossauros que ainda hoje comandam o clube ajudaram a dar ainda maior credibilidade à proposta: tornam patente que os mais enfáticos na oposição à idéia são justamente os personagens que fazem do Flamengo o que ele é hoje.

É pena que, em suas declarações posteriores, Leonardo tenha tentado contemporizar com o que ele próprio, na entrevista ao Globo, chamou de “estrutura viciada”. Reconhece abnegação e boas intenções nos que se ofenderam tanto com suas palavras e suas idéias. No entanto, um pouco mais adiante, não sei se por desatenção ou por extrema habilidade, pôs em questão todas essas boas intenções ao denunciar o pouco-caso com que a atual gestão deitou a perder o salva-vidas da Timemania: “Por que que o Flamengo foi inadimplente? Porque ele sabe que não vai dar nada. A dívida vai só aumentar, vai passar para o próximo Presidente e vambora e a gente vai.”

Diante de juízos assim incisivos, os que hoje esperneiam em público deviam refletir se de fato convém dar a cara a tapa, assumindo a culpa por ter tornado a endividar o clube sem nem ao menos trazer qualquer título de expressão em troca. Cá do meu lado, eu dou graças a Deus por esses personagens darem a cara a tapa. Quanto mais espernearem, tanto mais os termos da discussão assumem os seguintes contornos: que Flamengo você quer no futuro, o do Leonardo ou o do Kléber Leite?

Diante de uma discussão dessa transcendência, qualquer coisa que aconteça no domingo devia ser mera nota de rodapé na história rubro-negra.

15.12.08

DESCONSTRUINDO KLÉBER

Os poucos leitores que me restaram terão percebido que ando repetitivo. É verdade, e sou o primeiro a admitir. Desde aquele trágico 7 de maio de 2008 que ando cá com duas idéias fixas: que o Flamengo não voltará a ganhar nada importante enquanto tiver à frente o sr. Kléber Leite, o maior perdedor a administrar o clube em 113 anos de história; e que este time específico do Flamengo só fez agravar essa tendência porque era composto, em sua maioria, de atletas falhos de caráter, gente dada a tremer ou a perder o foco na hora das decisões.

Sobre o segundo tema, creio ter dito tudo o que eu tinha a dizer no meu comentário de 13 de outubro. Sobre o primeiro, para desalento de quem não me agüenta mais aqui, devo ter material para muitas colunas mais. Paciência.

Com o Brasileiro terminado, era de se esperar que o Flamengo não fosse mais motivo de chacota até pelo menos o começo do estadual. A incompetência e a fanfarronice do sr. Kléber Leite, no entanto, permitiram que fôssemos humilhados publicamente por um clube de segunda e por um ser humano de quinta. Mais adiante, na tentativa de criar-se um factóide que aplacasse a fúria da torcida, nossa sapiente diretoria acabou expondo ainda mais o atual desprestígio do Flamengo, esnobado agora pelo Parreira.

Essa patacoada convenceu-me de que todo rubro-negro esclarecido tem a obrigação de, sempre que puder, botar seu grãozinho de areia para enfraquecer o nosso atual Vice-Presidente de Futebol. Pode ser tarefa inglória, porque essa gente acha que, no final das contas, só deve satisfação à meia dúzia de sócios que os elegeu. Mas eu quero crer que a pressão das ruas e das arquibancadas, se perdurar no tempo, pode jogar o sr. Kléber Leite no mesmo ostracismo a que o condenaram os resultados de sua pífia gestão, em 1998.

Minha modesta contribuição de hoje é uma tentativa de desacreditar o argumento do ruim com ele, pior sem ele.

Em reação a minhas colunas anteriores, alguns leitores sustentaram que a eventual queda do sr. Kléber Leite traria de volta, imediatamente, o mesmo escrete de pesadelos que andou causando estragos na Gávea, em passado recente: um Anderson Barros, um Gérson Biscotto, um Walter Oaquim. Ou isso ou os usual suspects derrotados a cada eleição, uma lista cuja simples enumeração deveria ser suficiente para convencer-nos todos a deixar as coisas como estão na Gávea.

Isso tudo me parece, francamente, terrorismo psicológico do mais baixo. É claro que a perspectiva de ver o Flamengo entregue a essas alternativas me é tão desagradável quanto a qualquer outro rubro-negro em plena posse de suas faculdades mentais. Mas, se de algo nos servem as lições da História, fato é que, recentemente, quando defrontado com um vazio de poder -- após a cassação do sr. Edmundo dos Santos Silva --, o clube encontrou sabedoria suficiente para entregar seus destinos a um Hélio Ferraz. Não é santo de minha devoção, mas, diante das enormes vulnerabilidades do Flamengo de então, fez uma gestão muito melhor do que a encomenda.

Mas esse argumento não ataca a falha fundamental do ruim com ele, pior sem ele. Essa falha é a suposição de que o sr. Kléber Leite é tão patentemente melhor que essa gente que não é preciso nem começar a discutir.

A quem acredita nisso, desculpe lá: eu discuto.

Nos poucos círculos onde me era dado opinar sobre assuntos rubro-negros, eu mesmo cansei de bater nos tais Barros e Biscotto enquanto afundavam o Flamengo, no anterior mandato do sr. Márcio Braga. Achava-os e acho-os duas nulidades que só fizeram diminuir ainda mais o nosso prestígio minguante, enquanto o sr. Márcio Braga se dedicava a outras coisas. Também é fato que, depois deles, o Flamengo, que até então se limitava a brigar para não cair, passou a aspirar a coisas melhorzinhas.

O erro está em creditar essa perspectiva de algo melhorzinho -- se não ganhar o Brasileiro, ao menos classificar-se para a Libertadores -- à gestão do sr. Kléber Leite.

Kléber Leite assumiu o futebol do clube quando Márcio Braga estava em vias de implementar o grande projeto de sua administração: a Timemania. Para quem não entendeu o óbvio, o caça-níqueis tem pouquíssimo a ver com a possibilidade de gerar receita nova ao clube, e muito a ver com a nossa briga para derrubar as limitações legais e judiciais a continuarmos recebendo o que nos é devido, por força do contrato de patrocínio com a Petrobras.

Isso a Timemania resolveu e, uma vez assinado o acordo de adesão à loteria, e uma vez obtidas as correspondentes certidões negativas, o Flamengo pôde voltar a receber o dinheirinho da Petrobras, uma de nossas principais fontes de receitas. O resultado, que o torcedor desavisado não vê, é que coube ao sr. Kléber Leite administrar o futebol rubro-negro num aperto financeiro muito menor do que as alternativas tétricas de Barros e Biscotto.

Isto não torna o sr. Kléber Leite automaticamente pior do que os dois patetas que entregaram o futebol rubro-negro ao sr. Eduardo Uram, em 2004 e 2005. Mas quero crer que nos permite ao menos questionar o argumento de que é inquestionavelmente melhor. Se obteve resultados menos ruinzinhos, foi com recursos muito mais abundantes do que seus antecessores.

***

Enquanto o amigo leitor toma o tempo de concluir se concorda comigo ou não, aproveito a oportunidade para lançar as seguintes perguntas:

(1) O sr. Eduardo Uram continua exercendo, no Flamengo de Kléber Leite, tanta influência quanto exerceu no Flamengo de Anderson Barros e Gerson Biscotto? Quanto do nosso elenco atual é composto de jogadores seus?

(2) Se o contrato com a Petrobras revelou-se ruinoso para o clube, por que cazzo o Flamengo acaba de renovar com a companhia? Nossa sapiente diretoria acredita que esse arranjo capenga da Timemania durará para sempre? Não tiveram acesso às mesmas informações postadas há poucas horas pelo Hermínio Correa no FlamengoNet?

(3) Uma vez esgotado o prazo de carência da Timemania, a partir de janeiro próximo, teremos de complementar com receitas próprias a diferença entre a parcela devida ao Tesouro e os valores arracadados com a loteria. Como fará o sr. Kléber Leite para administrar o Flamengo a partir de então? Se, em temos de vacas um tanto mais gordinhas, os resultados de sua gestão foram pífios, como será em época de vacas magras?

Perguntar ofende?

8.12.08

J’ACCUSE

Muito bem, sr. Márcio Braga. A tragédia consumou-se ontem, e foi na sua gestão. Construir a hegemonia no Brasil custou doze anos, do golaço sem ângulo do João Danado ao Vovô-Garoto pulando enlouquecido, mais garoto que vovô. Destruí-la revelou-se tarefa muito mais difícil: levou dezesseis anos, e manda a justiça que se registrem aqui, com nome e sobrenome, os autores de tão bonita façanha: Luiz Augusto Velloso, Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Hélio Ferraz, Márcio Braga e de novo Kléber Leite -- passando ao largo de figurinhas menores como um Walter Oaquim, um Gilmar Rinaldi, um Anderson Barros, um Gerson Biscotto, um Michel Assef.

Como desgraça pouca é bobagem, a perda da hegemonia veio acompanhada da desclassificação do Flamengo para a Libertadores de 2009, após um ano marcado por alguns dos maiores vexames dos 113 anos de história flamenga. Não vou dar-me o trabalho de enumerá-los de novo. Basta-me registrar que, nos seis anos em que o Flamengo foi direta ou indiretamente administrado pelo sr. Kléber Leite, perdeu algo que fazia parte da sua essência: o mito do Maracanã como nossa bastilha inexpugnável.

Isso, senhor Presidente, é incomensuravelmente mais grave do que o São Paulo nos ultrapassar em número de títulos, e muito mais difícil de consertar. Pelos séculos dos séculos, toda vez que tivermos de decidir o que quer que seja nos nossos domínios, não há de faltar, do lado inimigo, quem cite o passeio do Ameriquinha do México como prova de que o Maraca lotado não deve meter medo em ninguém. E isto, senhor Presidente, é obra sua também.

O que me embasbaca, senhor Presidente, é o seguinte: estando ambos, eu e o senhor, de acordo em que o que aconteceu foi uma tragédia, e tendo ela se consumado na sua gestão, por que é que o senhor não toma atitudes, já nem digo para minorá-la, mas ao menos para punir os principais responsáveis?

Nos últimos dois ou três anos nos acostumamos a esse arranjo extravagante pelo qual o senhor reina mas não governa, e todos os atributos concretos do mando estão concentrados nas mãos do sr. Kléber Leite. Por conta disso, submetemos o Flamengo de novo a todos os vícios que marcaram o período negro entre 1995 e 1998, e que em 2008 cobraram um tributo tão pesado sobre o nosso desempenho em campo.

Ao apelarmos, de novo, à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite para montar times mais-ou-menos, submetemo-nos de novo ao fenômeno que arruinou as nossas chances de ser campeões este ano: o desmonte de cada time a cada “janela de contratações” aberta (e o próprio sr. Kléber Leite parece concordar com isso, como se não fosse obra sua, no triste balanço que faz de um ano esquecível).

Ou o senhor acha que um Kléberson por € 1,5 milhão vem sem condicionantes ocultos? Acha que é um fenômeno que não guarda a menor relação com o parcelamento dos direitos federativos sobre um Renato Augusto? A cada mês, uma fração maior desses direitos termina nas mãos dos mesmos intermediários que possibilitaram a vinda do Kléberson por € 1,5 milhão.

O senhor disse que o Flamengo só é forte quando monta times com maioria de jogadores made in Gávea. Não se trata aqui de concordar ou discordar do senhor. Trata-se de perguntar-lhe por que cazzo permite que seu Vice de Futebol persiga uma estratégia que vai contra tudo em que o senhor acredita. O Renato Augusto de hoje é o Sávio de ontem (que foi embora, recordemo-nos, na “engenharia financeira” que nos permitiu trazer o Romário pela enésima vez, mais um Rodrigo Fabbri e outros perebas que, juntos, não ganharam nada digno de registro no Flamengo). E, a menos que o senhor faça algo, o Renato Augusto de hoje será o Kaike de amanhã.

Que Flamengo made in Gávea, senhor Presidente, resiste à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite?

É esse Flamengo, de times que duram seis meses, de times sem empatia com a torcida, montados para ganhar campeonatinho carioca em cima dos fregueses de sempre, é esse Flamengo que o senhor pretende deixar a seu sucessor?

Pior: o senhor pretende mesmo fazer seu sucessor o sujeito que idealizou esse Flamenguinho movido a muita “engenharia financeira” e títulos nenhuns? Pretende mesmo aviltar ainda mais, com esse gesto, o belo legado que tinha construído entre 1977 e 1992?

O seu herdeiro-aparente já anda anunciando por aí que a prioridade, para 2009, é o campeonatinho carioca, e que para conquistá-lo “temos algumas coisas interessantes engatilhadas, mas com prazos curtos”. Não é que eu seja contra ganhar o carioca, muito menos contra reforçar um time que, por todos os parâmetros, se revelou um time de merda. O que me pergunto é se essa nova “engenharia financeira” não nos deixará ao deus-dará novamente em agosto ou setembro, passada a conquista de um estadual que cada vez acrescenta menos à nossa grandeza minguante.

O sr. Kléber Leite, eu sei, foi regularmente eleito junto com o senhor. Mas eu quero crer que, sendo o senhor Presidente e ele apenas Vice de Futebol, o senhor ainda guarda para si a autoridade suprema que lhe foi conferida pelos sócios. Autoridade bastante para cortar as asinhas de seu Vice de Futebol e desviar o Flamengo de uma anunciada rota de fracassos, em tudo semelhante à que o clube percorreu entre 1995 e 1998, sob a nefasta direção desse senhor.

Por último, eu quero crer que o senhor ainda guarda lucidez suficiente para, ao longo deste ano, apresentar-nos uma alternativa melhorzinha para gerir o Flamengo a partir de 2010. Eu cá achava, até recentemente, que o Flamengo era uma força da natureza. Hoje, eu não sei se resiste a uma terceira administração Kléber Leite.

13.10.08

KARAKTER

Não pretendo pôr em discussão minha conclusão, que me parece óbvia, de que falta caráter a este time que hoje avilta o Manto Sagrado de Rondinelli, Dequinha, Valido, Almir, Beto Cachaça e Anselmo (enumeração que, para mim, é tão representativa das virtudes flamengas quanto uma que elenque Zico, Zizinho, Leônidas, Da Guia e Júnior). Aos bons rapazes que espernearam quando bati nessa tecla, alguns meses atrás, sugiro a leitura do seguinte artigo como pré-requisito para qualquer conversa. Os que concordarem comigo que é inaceitável ser goleado em casa, numa única temporada, pelo Ameriquinha do México, o São Paulo e o pavoroso Atlético Mineiro podem pular a leitura da bibliografia recomendada.

Reitero: mais que futebol, anda faltando caráter aos jogadores do Flamengo. Anda faltando aquele mínimo de orgulho e compostura que os da minha geração crescemos julgando indispensável para jogar na Gávea. Jogador nosso podia nem sempre ter a habilidade dum Adílio, dum Carlinhos ou dum Petkovic. O que não podia era, quando a chapa esquenta y las papas queman, dobrar-se diante da pressão que vem das arquibancadas. Podiam até perder, mas perdiam como os valentes que, em 1993, esfregaram nosso amor-próprio nos cornos de 60 mil são-paulinos em pleno Morumbi, com o golaço do Marquinhos.

Foi essa valentia, esse amor-próprio desmedido, mais do que a qualidade dos nossos atletas, que fez de nós um clube historicamente vencedor. Aquele do deixou chegar, fodeu. Aquele que, mais que craques, se orgulhava de formar campeões.

Contrastemos, agora, esse atributo dos ídolos rubro-negros -- o de vencedor -- com o currículo dos pilares do time de hoje do Flamengo.

Ibson vai a caminho dos 25 anos. Fora uns campeonatinhos cariocas e portugueses (na reserva), somados a uma Copa do Brasil (glória de que também se pavoneiam Criciúma, Juventude, Santo André, Paulista de Jundiaí e Sport Recife), Ibson não tem na carreira nenhum título digno de nota. Além disso, foi o único bípede a estar em campo nas duas maiores humilhações da história do Flamengo: o jogo contra o Santo André, em 2004, e o jogo contra o Ameriquinha do México. Não fosse pela idade, era capaz de ter jogado também contra o Bonsucesso, em 1968.

Léo Moura tem 30, e joga profissionalmente há 12 anos. Além do Flamengo, defendeu times da expressão do São Paulo, do Palmeiras, do Fluminense e do Vasco. Seu palmarès: dois campeonatinhos cariocas, uma Copa do Brasil.

Juan tem quase 27 anos. A distingui-lo dos anteriores, tem no currículo uma Copa da Inglaterra, pelo Arsenal, um charmoso prêmio de consolação para quem não ganhou nem a Premiership, nem a Liga dos Campeões. De resto, a mesma enganação de carioquinhas e Copas do Brasil.

O próprio Fábio Luciano, provectos 33 anos bem vividos, tido e havido por aí como grande vencedor, não tem lá no currículo muito mais do que os outros, não. Um campeonato nacional, sim, mas da Turquia. Carioquinhas, paulistinhas e duas Copas do Brasil. E o caça-níqueis de verão da FIFA de janeiro de 2000. Brasileiros, Libertadores e Mundiais, zero.

Reconheçamos o mérito de Kléberson, titular da seleção pentacampeã e campeão brasileiro pelo Atlético Paranaense. Passemos ao largo de Jaílton, de quem não se espera mesmo grande coisa, do esforçado Angelim e de Toró, que só tem 22 anos (mas costuma perder a cabeça nos momentos decisivos). Passemos ao largo de Obina, que andou garantindo o pouco que andamos conquistando, e do recém chegado Marcelinho Paraíba, que tampouco tem lá uma sala de troféus digna de nota. E farei todo o esforço do mundo para não falar do frangueiro Bruno, 23 anos, que um dia recrimina o Márcio Braga por acreditar no time, no outro debocha da nossa inteligência dizendo que “temos de continuar acreditando no título”.

Registrando essa única e honrosa exceção do Kléberson, limitemo-nos aos demais pilares do time -- Ibson, Léo Moura, Juan e Fábio Luciano -- e constatemos que ali não tem nenhum grande vencedor. Não digo que seja a hora de botar os quatro para fora a pontapés, mas talvez tenha chegado o momento, sim, de avaliar quão importantes eles realmente são para o time. Na hora de mostrar coragem e caráter, nenhum dos quatro jamais acrescentou muita coisa. Foram tão úteis quanto o instável Toró, a dar patadas em gandulas quando o que precisávamos era de cabeça fria.

E com líderes como esses, que falharam toda e cada vez que a torcida sentiu que o jogo era decisivo, era previsível que a participação do Flamengo no Brasileiro de 2008 terminasse de forma melancólica, como foram todas as nossas participações de 1993 para cá, exceção feita, talvez, a 2007.

Com o caráter dessa gente, temo que não comemoremos nem mesmo o prêmio de consolação da vaga na Libertadores, que eles jamais fizeram por merecer.

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Claro, o meu mau humor com essa mulambada não há de ser pretexto para eu esquecer que, entre tantos perdedores a vestir o Manto, há um que se sobressai por cima de todos os demais. Dirigiu o futebol do Flamengo por sete longos anos e nunca conquistou nada digno de nota. Fora o jogo contra o Santo André, sua presença nefasta terá contribuído para a maior parte das tragédias que se abateram sobre nós de 1995 para cá: o gol de barriga do Renato e a conseqüente demissão do futuro campeão brasileiro de 2008, Vanderlei Luxemburgo (e de 1993, 1994, 1998, 2003 e 2004); o pior ataque do mundo e o sem-ter-nada no mesmo ano; a devolução dos ingressos contra a Portuguesa e a volta olímpica gremista debaixo das nossas barbas, em 1997; a humilhação da carreata vascaína em frente da nossa sede, em 1998, sem que tivéssemos força sequer para reagir (não na sua gestão); os chocolates uruguaios do Nacional e do inexpressivo Defensor, a suprema humilhação diante do Ameriquinha do México, as goleadas em casa diante do São Paulo e do pavoroso Atlético Mineiro, em 2008.

Em todos esses episódios funestos houve o dedo do sr. Kléber Leite. Sete anos à frente do Flamengo e nenhum título expressivo. Nos últimos três, é certo, com apertos financeiros para os quais a sua própria gestão imprevidente, entre 1995 e 1998, terá contribuído enormemente. Mas, por grandes que sejam as nossas dificuldades de caixa, não concebo que sejam maiores que as de times que ontem mesmo estavam na segunda divisão, como o Palmeiras e o Grêmio, hoje aí lutando pelo título brasileiro.

Coisa que o Flamengo de Kléber Leite -- qualquer Flamengo de Kléber Leite -- foi sempre incapaz de fazer.

11.8.08

TEM CULPA NÓS?
OU “DA NECESSIDADE DE SER XIITAS”.


Compromissos profissionais impediram-me de voltar a pronunciar-me sobre o Flamengo desde o meu último palpite azedo, datado de 22 de junho, há quase dois meses. De lá para cá, as tribulações do nosso time e as trapalhadas do sr. Kléber Leite bem demonstraram que o meu mau humor tinha razão de ser.

Seguiram-se três vitórias, é verdade, que deixaram o Flamengo bem posicionado para cumprir a sua obrigação, que é ser campeão brasileiro. Depois disso, no entanto, enquanto o nosso sapiente Vice de Futebol desmontava o time e deixava o pobre Caio Júnior sem um único meia-armador, desandamos a perder e a empatar, despencando da primeira para a sétima posição e praticamente jogando no lixo as chances de levantar o caneco.

Depois dessa seqüência, 2008 passa a ser um anozinho mais-ou-menos como outro qualquer, com a perspectiva, quando muito, de voltarmos à Libertadores no ano que vem. É preciso ir muito longe no tempo, talvez a 1979, para encontrar outra ocasião em que desperdiçamos de maneira tão flagrante um título que parecia tão bem encaminhado. Só que, ao contrário do elenco atual, o de 1979 acabou demonstrando que tinha caráter e estava em condições de vestir o Manto Sagrado. O time de hoje, até prova em contrário, é só o time que foi eliminado em casa pelo Ameriquinha do México.

Por tudo isso me parece inadmissível que, depois do Bruno, agora me venha o sr. Ibson Barreto da Silva apontar o dedinho para a torcida, em sinal de cobrança. Cobrar o quê de nós? O cidadão Ibson tem dito, para quem quiser ouvir, que acha “brincadeira” o comportamento da torcida, e que, “quando a gente mais precisa da torcida, em vez de nos apoiar, ela nos critica”.

Que tal invertermos os termos da equação e perguntarmos ao cidadão Ibson o que ele e seus companheiros fizeram quando nós, a torcida, mais precisamos deles? Quando acalentávamos o sonho de conquistar a Libertadores, enchemos o Maraca e não deixamos de apoiar, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram? Quando os perdoamos (a meu ver, prematuramente) pela trapalhada de 7 de maio e voltamos a empurrar o time, sonhando com um título brasileiro, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram?

A torcida do Flamengo acostumou mal demais esse bando. Fazem o que fizeram -- ou o que não fizeram -- contra o América e se acham no direito de esperar o mesmo tratamento do time de 1981. Jogam no lixo o título brasileiro de 2008 e querem ser recebidos com carreatas e discurso no aeroporto, qual a seleção de 1958.

Não quero ser injusto e deixar de apontar à execração pública o principal responsável pela débâcle, o sr. Kléber Leite. É dele, mais do que do time que nos restou, a culpa pela perda do título, e não há Marcelinho Paraíba ou Leandro Gracián capaz de reverter a tragédia a esta altura do campeonato, com o Flamengo em sétimo.

Mas é preciso dar o tratamento que corresponde também a esse bando que maltrata a bola com a camisa que foi do Zico, do Júnior, do Leônidas, do Dida. Muito bem, ganharam do poderoso, do multicampeão, do mundialmente festejado Atlético Paranaense e acham que esfregaram seu valor na cara da torcida. Na boa: ou somos todos mulher de malandro ou não é essa exibiçãozinha de sábado que nos fará voltar ao Maraca e apoiar essa gente como se nada tivesse acontecido, de 7 de maio para cá. A torcida do Flamengo precisa tratá-los com indiferença e hostilidade até provarem que são homens, que têm caráter, e possam reconquistar o nosso respeito com títulos.

Outros clubes aí têm feito muito mais do que o nosso sem a exuberância da nossa torcida, com uma torcida às vezes gélida, às vezes hostil. Se alguma culpa cabe a nós, torcedores, pela presente irrelevância do Flamengo (como, aliás, andou bostejando o sr. Kléber Leite logo depois do 7 de maio), é por perdoarmos fácil demais. Sejamos intransigentes, sejamos xiitas na nossa obstinação, e só voltemos a tratar os nossos atletas com carinho quando eles voltarem a conquistar o Brasileiro.

Que, nunca é demais lembrar, é obrigação.